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Entrevista com Donaldo Buchweitz

Troika: Para começarmos, você poderia se apresentar aos leitores da New Routes e contar um pouco sobre sua trajetória pessoal e profissional?

DONALDO BUCHWEITZ: Sou Donaldo W. Buchweitz, fundador da Ciranda Cultural. Venho da roça, de uma família humilde, onde o trabalho sempre falou mais alto. Desde cedo encontrei nos livros um prazer e uma companhia.

Minha formação passou por filosofia, teologia, teatro e jogos cooperativos. Esses caminhos me ensinaram que uma história nunca é só entretenimento: ela é ponte, afeto e ferramenta de transformação.

Ao longo dos anos, atuei como autor, editor e criador de projetos dedicados à infância.

T: Seu sobrenome contém a palavra “Buch”, que significa “livro” em alemão. É uma bela coincidência. O que esse vínculo simbólico representa para você?

DB: É uma coincidência bonita. Vejo como um lembrete silencioso do caminho que escolhi: dedicar minha vida aos livros e ao leitor.

T: Você dedicou sua vida aos livros e às histórias. Como começou sua trajetória no mundo editorial e o que despertou seu interesse por esse universo?

DB: Minha trajetória no mercado editorial começou de forma simples: organizando feiras de livros em escolas públicas. Ali percebi a carência e a potência que o livro tem na vida das crianças. A Ciranda nasceu desse desejo de fazer chegar mais histórias a mais pessoas. Nas feiras, via o brilho nos olhos das crianças e, ao mesmo tempo, a dificuldade de acesso aos livros. Foi essa realidade que me impulsionou a criar uma editora com foco em qualidade, acessibilidade e proximidade com as famílias e educadores.

T: De contador de histórias a editor, que lições da vida você levou para o mundo dos livros infantis?

DB: Levei a disciplina, a humildade e a simplicidade que aprendi na roça. Esses valores me ensinaram que aquilo que é verdadeiro, seja uma história ou uma atitude, sempre chega ao coração das pessoas. É com essa base que construímos a Ciranda.

T: Ao longo dos anos, quais foram as principais mudanças que você percebeu no comportamento e nas preferências dos leitores brasileiros?

DB: O leitor está mais visual, mais conectado e busca narrativas mais diversas. Ao mesmo tempo, continua valorizando boas histórias que emocionam, que têm propósito e que conversam com seu cotidiano.

T: A Ciranda Cultural é uma editora presente na infância de muitos brasileiros. Qual você diria que é o segredo para manter essa proximidade com o público por tanto tempo?

DB: O segredo é continuar perto do leitor. Mantemos diálogo constante com escolas, famílias e profissionais da educação. Trabalhamos com constância, cuidado e preços acessíveis, sem perder a coragem de inovar. Essa combinação cria confiança.

T: Como equilibrar o sucesso comercial e o valor educativo na escolha dos livros a serem publicados?

DB: O critério é simples: o livro precisa acrescentar algo à vida da criança. Se carrega valor humano, educativo e emocional, e se faz sentido para nosso público, avançamos. O equilíbrio nasce dessa coerência.

T: Tornar a leitura mais acessível tem sido um desafio constante no país. Que caminhos você acredita que o mercado editorial pode seguir para aproximar mais pessoas dos livros?

DB: Acredito em três pilares que sempre nortearam a Ciranda:

• Relacionamento próximo com o cliente, ou seja; ouvir quem está na ponta: professores, famílias, livreiros, escolas, etc.
• Distribuição forte e capilarizada: fazer o livro chegar onde ele realmente precisa chegar.
• Coragem para ousar e investir: apostar em produtos nos quais acreditamos, mesmo quando parecem arriscados.

T: Nos últimos anos, fala-se muito sobre o papel da leitura no desenvolvimento da empatia, da imaginação e do pensamento crítico. Como você enxerga a contribuição dos livros infantis nesse sentido hoje?

DB: Livros infantis são como ensaios para a vida real. Eles permitem que a criança compreenda emoções, imagine possibilidades e questione o mundo. São ferramentas poderosas de formação humana.

T: Você acompanhou o surgimento da leitura digital e das novas mídias. Como a tecnologia influenciou a forma de publicar e divulgar livros e como imagina que ela transformará o futuro da leitura?

DB: A tecnologia amplia o alcance e cria novas formas de interação com o público. Vejo que o digital facilita, aproxima e distribui enquanto o livro físico permanece como objeto afetivo, insubstituível na experiência da infância.

T: A Ciranda Cultural sempre trabalhou com muitos gêneros, autores e formatos diferentes. Como é o processo de escolha dos projetos a serem publicados? O que faz uma história se destacar para você?

DB: Buscamos histórias relevantes, simples e bem contadas, com propósito claro. Um projeto se destaca quando emociona e quando transmite verdade.

T: Olhando para trás, há algum título ou momento da história da Ciranda Cultural que traga um orgulho especial?

DB: Ter nossos livros presentes em tantas escolas, o mesmo lugar onde tudo começou, é algo que me emociona e me dá orgulho até hoje. Ali percebo que estamos cumprindo nossa missão.

T: O mercado editorial enfrentou diversos desafios nos últimos anos, de crises econômicas a mudanças nos hábitos de leitura. Quais têm sido, na sua opinião, os maiores desafios e oportunidades para editoras independentes como a Ciranda Cultural?

DB: O desafio é enfrentar um mercado instável e competitivo. A oportunidade
é a autonomia: podemos inovar rápido, arriscar mais, ouvir o cliente de perto e avançar com criatividade.

T: Por fim, como alguém que vive cercado de histórias, que mensagem você deixaria para jovens leitores, professores ou novos autores sobre a importância de manter viva a paixão pelos livros?

DB: Aos jovens: leiam o que desperta curiosidade. A leitura é libertadora. Aos professores: vocês são nossos parceiros essenciais na formação do leitor. Aos autores: escrevam com o coração. Mantenham o livro vivo no cotidiano. Ele transforma silenciosamente, mas transforma para sempre.

O ENTREVISTADO

Donaldo Buchweitz

Donaldo Buchweitz nasceu em Canguçu-RS, formou-se em teologia e filosofia e fez pós-graduação em jogos cooperativos pela Unimonte. O amor pelos livros e pela arte começou cedo, por isso foi estudar Teatro na Escola Macunaíma. Seu primeiro livro, A ovelha rosa da dona Rosa, foi escrito em 2010. De lá para cá, já escreveu e adaptou mais de 100 livros de literatura infantil e compôs mais de 100 músicas. Seus hobbies são jogar xadrez e cuidar de sua pequena horta. Conheça mais em @donaldobuchweitz .

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