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Coluna de John Milton!

Peguei um taxi em Macau duas semanas atrás. Ia para a Universidade, e me lembrei que os taxistas macauenses não entendem nenhuma palavra nem de inglês, nem de português, nessa cidade, que é, oficialmente, trilíngue. No ano passado tive a mesma experiência e me lembrei que o McDonald’s ficava perto da universidade, e o taxista entendeu “McDonald’s”! Esta vez, felizmente, tinha no computador a dissertação da estudante que eu ia examinar, e mostrei o símbolo da universidade com as letras em chinês, e cheguei sem problema. Nem em Hong Kong, supostamente bilíngue, com sua influência inglesa, os taxistas entendem inglês. E quando fui para a China, era muito difícil encontrar alguém que falasse inglês. De vez em quando um estudante me ajudava ou tentava praticar inglês comigo, mas, até em Beijing, o conhecimento de inglês é muito limitado.
 
Isso é muito diferente dos outros países da região onde estive agora; na Tailândia, em Laos, no Vietnã, e na Camboja muita gente aranha um pouco de inglês. E se pensarmos na Europa, os franceses e os ingleses, como os norte-americanos, têm fama de não saberem línguas estrangeiras, totalmente diferente da Escandinávia, e dos Países Baixos. Mas por quê? É uma pergunta complexa sem resposta fácil, mas podemos pensar em alguns pontos.
 
Vamos começar com a atual luta para decidir quem vai ser o candidato republicano nas eleições presidenciais norte-americanas em novembro. Quando foi descoberto que Mitt Romney falava francês (ele foi missionário mórmon na França na década de 1960) [https://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-16549624], seus adversários começaram a atacá-lo por ser pouco patriótico: não é considerado “de bom tom” para um candidato a Presidente dos Estados Unidos, especialmente do Partido Republicano, falar línguas estrangeiras, especialmente o francês, como o relacionamento entre a França e os Estados Unidos nunca foi tão cordial.
 
Essa situação é bastante familiar para mim. Cresci em Birmingham, na Inglaterra, e estudei no que era considerado o melhor colégio de meninos de Birmingham.  Estudei o francês e o espanhol, mas havia pouco interesse nas línguas estrangeiras, e desconfiava-se de alguém que falava bem uma língua estrangeira. Não era considerado muito “macho”, e como tantos estrangeiros falam inglês, por que aprender outras línguas?

Mas vamos comparar a situação com outros países. Entrei num pub em Copenhagen, um sábado à noite. Todos falavam em inglês, muito bem. Eram dinamarqueses, mas parece que costumavam praticar seu inglês tomando uma cerveja nos sábados. Em outra ocasião, eu estava num trem na Bélgica. Um escoteiro de uns 12 anos entrou no trem em Bruxelas. Sua primeira língua era o francês. As paradas eram anunciadas em francês, inglês e holandês, e ele repetia as palavras anunciadas: “Nous arrivons à Bruges”; “We are now arriving in Bruges”; “We komen aan in Brugge”. Ele estava aprendendo inglês e holandês. Era óbvio que gostava de falar outras línguas, e não sentia nenhum tipo de constrangimento.
 
Na Escandinávia e nos Países Baixos há outra grande vantagem para quem está aprendendo línguas estrangeiras, a quantidade enorme de programas legendados na televisão. Desde cedo, as crianças acostumam o ouvido a escutar línguas estrangeiras, e, claro, os sistemas de ensino público são muito bons. E esses países têm populações relativamente pequenas, que sempre dependeram de contatos comerciais com outros países.
 
Voltamos à China, um país de 1.3 bilhão almas, que sempre foi bastante fechado ao mundo. Hoje em dia muito menos, mas a China nunca se interessou no que acontecia lá fora, e pelas culturas e línguas estrangeiras. Também, aprender a escrever chinês é tão difícil, que deixa muito pouco tempo para aprender outras línguas.  E, China é tão grande, com um mercado interno tão imenso que, na grande maioria das profissões, até hoje em dia, não há nenhuma necessidade de falar uma língua estrangeira. E aqui podemos dizer a mesma coisa de Inglaterra, dos Estados Unidos, e até do Brasil, com seu grande tamanho e economia crescente.
 
Muita gente me pergunta sobre as possibilidades de estudar ou trabalhar no Brasil pensando que o inglês seja a língua das universidades e das profissões. “Aprende português”, lhes digo. “Há pouquíssimos lugares onde fala-se inglês!”.


John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.
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  • Olá, Prof. John Milton. Foi-me recomendado um artigo seu que supostamente se intitularia "Por que estudar tradução?". Tenho feito pesquisas na internet procurando-o, mas não o encontro. O título está correto? Em caso afirmativo, como faço para encontrá-lo? Atenciosamente, Fabíola.

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