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Coluna de John Milton

Sou de Birmingham, a segunda cidade de Inglaterra, de um milhão de habitantes, o centro da indústria automobilística. Cresci numa família da classe operária, e todos falavam com o forte sotaque de Birmingham, o Brummie, que tem uma forte nasalização e substitui o ditongo “ai” pelo “oi”; assim “five” e “nine” se tornam “foive” e “noine”. Levei amigos brasileiros para conhecer minha mãe, e me perguntaram: “Qual é essa palavra que ela usou que parece “noise”?” Era “nice”.
Dentro do sistema social inglês o sotaque Brummie sempre teve baixíssimo prestígio. Para velhos roqueiros como Ozzy Osbourne, tudo bem, mas se você quer avançar na escala social, melhor perder seu sotaque Brummie. Foi isso que aconteceu comigo, aos onze anos, quando ganhei uma bolsa para estudar em King Edwards School, o colégio mais prestigioso de Birmingham, onde a maioria de meninos eram filhos de médicos, professores universitários, advogados ou outros profissionais liberais. E ninguém tinha sotaque Brummie. Assim, sem fazer qualquer esforço, meu Brummie sumiu por um processo de osmose, e comecei a falar um tipo de RP, Received Pronunciation, a pronúncia necessária para ser recebida na boa sociedade o inglês da BBC, o inglês da Rainha Elizabeth.
É muito fácil encontrar exemplos do Brummie no Youtube. Aqui há uma criança contando de um a dez:
Mas também há vantagens de ter um sotaque local. Pesquisas mostram que se pensa que alguém com sotaque Brummie não seja muito inteligente, e o que fala não seja muito confiável, mas é considerado mais simpático e não tem nada do esnobismo que falantes de RP costumam ter.
Assim, na Inglaterra não existem médicos ou advogados com sotaques de Birmingham, ou de Liverpool, o Scouse, ou de Londres, o Cockney. Ninguém teria nenhuma confiança no que falariam; e ninguém vai querer ser operado por um cirurgião com sotaque Brummie. E locutor do jornal nacional na televisão ou rádio nem pensar! Posso imaginar a revolução que acarretaria! E muitas cabeças rolariam!

John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.
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