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Como é que se pronuncia o inglês de Shakespeare?

Como é que se pronuncia o inglês de Shakespeare? A primeira vista, supõe-se que deve ser semelhante à maneira em que os grandes atores clássicos ingleses como Sir John Gielgud

e Sir Lawrence Olivier

o pronunciavam, naquela RP (Received Pronunciation) da Rainha Elizabeth ou da BBC. Mas o pesquisador e ator Ben Crystal, numa gravação que ele fez na British Library, desmistifica essa ideia. Sua pesquisa foi baseada nas rimas na obra de Shakespeare, especialmente os sonetos, que mostram que certos sons, que não são rimas hoje em dia, eram rimas na época de Shakespeare, por exemplo, de Soneto 116.  If this be error and upon me proved, / I never writ, nor no man ever loved”. A probabilidade é que usava-se um “o” curto / ɒ /, como em “lot”, “odd”, “wash”, e que a rima de “proved” e “loved” era uma rima cheia: /prɒvd/ e /lɒvd/. Pode se escutar Bem Crystal em:
https://www.npr.org/blogs/monkeysee/2012/03/24/149160526/shakespeares-accent-how-did-the-bard-really-sound
Para quem está acostumado aos acentos clássicos da Royal Shakespeare Company, a recriação de Ben Crystal é desconcertante. Parece ter elementos escoceses, como o sotaque escocês mantêm os vogais puros. Também, com o “r” acentuado parece ter elementos da pronúncia do oeste e do sudoeste de Inglaterra, geralmente considerado “caipira” na Inglaterra, o que é semelhante ao sotaque do interior do estado de São Paulo, que também pronuncia o “r” forte.
E se poderia dizer que o inglês elisabetano é muito mais próximo ao sotaque norte-americano. Quando uma língua é transferida a um novo país para de se desenvolver e mudar durante vários anos. Fica, de certa maneira, parada no tempo. Assim, o português do Maranhão é muito mais parecido ao português do século XVII do que é o português de Lisboa de hoje. E o francês de Québec é bastante parecido ao francês do norte da França da mesma época. E, em Cape Cod, no estado de Massachusetts, onde alguns dos primeiros colonizadores desembarcaram nas Américas em 1620, existe um inglês bastante parecido ao de Shakespeare.
Em 1997 fui a Newfoundland, ou Terra Nova, no extremo leste de Canadá, uma região que foi somente incorporada no Canadá em 1951, e tomei um taxi para o hotel. O motorista era um senhor de uns 60 anos que me disse que eu deveria visitar uma “‘smaal’ /sma:l/ village”. Ele usava o “a” longo /a:/, que existia no inglês de Shakespeare, e que permanece em Newfoundland. Ali houve colonização de Devon no oeste de Inglaterra, e da Irlanda. Os pescadores iam pescar bacalhau nos curtos verões, e acabaram ficando por lá, ainda com relativamente pouco contato com o resto do Canadá, muita gente morando em comunidades isoladas a maioria das quais ainda mantinha características de seus sotaques originais ingleses ou irlandeses. E esse mesmo fenômeno pode ser encontrado em muitos lugares na América do Norte.

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John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.

 

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