Muito se fala atualmente sobre o papel da educação no desenvolvimento da cidadania. A política educacional brasileira ressalta tal importância, chegando mesmo a afirmar que a cidadania, juntamente com a consciência crítica com relação à linguagem e os aspectos sociopolíticos relacionados à aprendizagem de uma língua estrangeira, são os temas centrais das diretrizes curriculares que orientam o ensino de línguas estrangeiras no país (para ler mais sobre essas diretrizes no contexto do Ensino Fundamental clique
aqui).
Nas minhas conversas com professores de inglês no Brasil, muitas vezes ouço comentários como “Mas como podemos desenvolver a cidadania ao ensinar inglês?”, “Temos tão pouco tempo para ensinar a língua! Como podemos achar tempo para trabalhar a língua e mais a questão da cidadania?apoiandoeia de que de explorar essas perguntas questngl”.
Neste postgostaria de explorar essas perguntas defendendo a ideia de que o ensino de língua estrangeira torna-se mais relevante (e, na minha opinião, mais interessante tanto para quem ensina quanto para quem aprende) quando vamos além de aspectos que envolvem o sistema linguístico da língua ensinada, isto é, seus sons, seu léxico, sua morfologia e sua sintaxe. E proponho que “ensino de língua e cidadania” podem (e devem!) caminhar juntos, simultaneamente.
Para desenvolver meu argumento eu vou começar descrevendo um evento que vivenciei recentemente. Estava andando em direção ao ponto de ônibus quando cheguei a uma parte da calçada em que há um estreitamento no qual apenas uma pessoa consegue passar, como mostra a foto a seguir.
À minha frente, no outro extremo do estreitamento da calçada, vi que um senhor com seus aproximadamente 80 anos se aproximava em uma bicicleta. Ao me ver, o ciclista parou sua bicicleta e dela desceu. Eu, do meu lado, também parei, porque afinal o caminho só daria lugar para um de nós passar de cada vez – e, no meu entendimento, sendo eu mais jovem do que o ciclista, era eu quem deveria ceder a vez.
No entanto, diz a lei na Inglaterra, onde moro, que ciclistas não podem andar nas calçadas e a rigor quem deveria ceder a vez em tal situação era o ciclista e não eu. De fato, ele fez questão de deixar isso claro ao parar e indicar com um gesto que eu deveria continuar andando. Quando passei por ele eu agradeci, ao que ele retrucou: “It’s your space, not mine – I shouldn’t be here in the first place”.
O episódio me fez pensar nas diversas formas em que tal situação poderia ser explorada em uma aula de inglês. Alguns pensamentos que poderiam ser combinados para um trabalho simultâneo de aspectos linguísticos e desenvolvimento da cidadania vão a seguir:
– A breve fala do ciclista poderia servir de ponto de partida para uma revisão dos Possessive Adjectives e Possessive Pronouns. Os alunos poderiam refletir sobre o uso de your e mine, e em seguida sugerir outras frases similares que poderiam ter sido ditas pelo falante (por exemplo, It’s your pavement, not mine.; It’s your right of way, not mine.). A ideia poderia ser ampliada pedindo-se aos alunos que pensassem de que forma potenciais observadores do evento poderiam descrever a situação (It’s her priority, not his.).
– O evento serviria como ponto de partida para um trabalho com expressões usando “place”. Os alunos poderiam ser incentivados a inferir o significado de “in the first place” e verificá-lo, por exemplo em https://idioms.thefreedictionary.com/place. O site contém outras expressões com place que poderiam ser trabalhadas pedindo-se aos alunos que, em pares ou pequenos grupos, escolhessem uma expressão da lista e fizessem uma frase utilizando tal expressão para descrever algum aspecto da vida em sociedade. Depois, em conjunto, os pares leriam suas frases e a turma tentaria adivinhar o significado da expressão focalizada, verificando suas inferências no site. A atividade poderia culminar com um debate mais amplo sobre as frases produzidas.
– Uma boa forma de conciliar o foco linguístico com um foco mais global com ênfase no desenvolvimento da cidadania seria utilizar o evento como apoio a um trabalho com modal verbs. Esse trabalho poderia envolver, por exemplo, pesquisas e debates sobre o que pedestres e ciclistas should, shouldn’t, must e mustn’t do. O site https://www.gov.uk/rules-for-cyclists-59-to-82/overview-59-to-71contém informações sobre as regras para ciclistas no Reino Unido e pode ser usado como apoio à ideia aqui sugerida. Uma ampliação do trabalho seria comparar tais regras com regras similares no Brasil com subsequente comparação entre as regras nos dois países.
– A situação poderia gerar um debate sobre o comportamento do ciclista: Why was he on the pavement and not on the road? Why did he stop and tell the pedestrian ‘It’s your space not mine’? How would you have reacted if you had been in the pedestrian’s place? Why? Did the cyclist display a sense of citizenship? Why (not)?
– Reflexões adicionais podem ser feitas pedindo-se aos alunos que descrevam eventos similares que tenham vivido ou presenciado: What happened? How did the people involved behave in the event? What did they say? To what extent can the event illustrate good or poor expression of citizenship?
O que proponho acima são sugestões que podem conciliar o trabalho linguístico com o trabalho focando o desenvolvimento da cidadania. Gostaria de ouvir seu relato se você utilizar alguma(s) dessas ideias em sua aula. O que você fez? Como os alunos reagiram? Como você avalia o
processo pedagógico nesse trabalho de forma mais geral? Entre em contato comigo em denise@denisesantos.com.
Denise Santos tem bacharelado e licenciatura em Português e Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é mestre em educação em língua inglesa pela University of Oklahoma (Estados Unidos) e doutora em linguística aplicada pela University of Reading (Inglaterra). Tem participação frequente em congressos nacionais e internacionais, e possui vários trabalhos publicados em livros e revistas acadêmicas no Brasil e no exterior, bem como livro didáticos para o ensino de inglês e de português como língua estrangeira. Mais informações em www.denisesantos.com.
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Very good Denise. Também podemos adaptar para uma aula sob a ótica dos "New Literacies".