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A maior parte de minha vida acadêmica passou-se estudando e escrevendo sobre a arte da tradução, uma arte que muitos leigos consideram fácil, mas que é cheia de dificuldades, problemas e emboscadas. Vamos examinar alguns dos clichês correntes sobre a tradução.


i) Os bilíngues são tradutores naturais

Nem sempre. O fato de falar duas línguas fluentemente não quer dizer que se pode traduzir perfeitamente de uma para outra. Para os bilíngues as línguas podem existir em compartimentos separados para serem utilizadas em situações diferentes. Em muitos casos o tradutor literário pode não falar muito bem a língua da qual traduz, e não é necessário para o intérprete de cabine escrever a língua da qual interpreta. Em outros casos a habilidade tradutora do bilíngue pode ser ativada cedo, como no caso de crianças de famílias imigrantes que crescem bilíngues e que traduzem e interpretam para seus pais no hospital, no serviço social, até para preencher o formulário do imposto de renda.


ii) A Poesia é o que se perde na tradução.

Foi o que o poeta norte-americano Robert Lowell disse sobre a tradução, porém, na outra mão, deveríamos estudar as traduções criativas por Haroldo e Augusto de Campos de James Joyce, Ezra Pound, Dante, Mallarmé, John Donne, dos haikai japoneses, e  de muitos outros poetas de várias línguas, a maior parte dos quais inovaram formalmente nas suas próprias línguas. Os Irmãos Campos recriam em português a poesia original, às vezes tomando certas liberdades semânticas para manter elementos equivalentes visuais ou sonoros do original. Podemos mencionar os exemplos da tradução de Haroldo do Fausto de Goethe, Deus e o Diabo no Fausto de Goethe, quando tenta recriar em português a técnica alemã da formação das palavras valise com “flamirrompe”, “rubibochechudos”, e “pescocicurtos”. Realmente, não podemos dizer que traduções como as dos Campos são inferiores aos originais.


iii) Nunca deveríamos ler traduções quando estudamos uma literatura.  

Foi isso que vários professores nos disseram. Sempre devemos ler o original. Ótimo. Muitos de nos sabemos o espanhol, o francês, o inglês, o italiano. E o alemão? O russo? O chinês? O japonês? Temos de passar cinco, dez anos aprendendo o russo antes de abrir Guerra e Paz e Os Irmãos Karamazov? E será que nosso conhecimento de russo será o suficiente para conseguir ler Tólstoi ou Dostoievski? Felizmente, hoje em dia há pouquíssimos cursos universitários que dão esse conselho. Nos Estados Unidos até há disciplinas sobre a Literatura Mundial nas quais a maioria da leitura é traduções.


iv) A tradução sempre deve ser fiel

Mas fiel ao que? Sim, na tradução juramentada o tradutor deve traduzir todas as palavras sem excluir nada. E contratos para a tradução de livros no âmbito editorial vão exigir que a tradução seja “acurada” e “fiel” “sem omitir nada”. Mas se pensarmos na tradução de poesia, ou prosa poética, a situação é outra. No caso da tradução de “O Corvo” de Edgar Allan Poe”[1], o elemento mais importante no poema é a quantidade de rimas, internas e no fim de verso, e a repetição contínua do refrão “Never more”. O que acontece no poema tem relativamente pouca importância. E o maior exemplo de tradução mais fiel de “O Corvo” para o português é a tradução majestosa de Fernando Pessoa, que consegue manter a forma numa tradução sublime, totalmente fiel ao original.


v) O interprete de cabine tem habilidades paranormais

Não, ele, ou ela, somente consegue processar a fala que entra para a segunda língua com grande facilidade e velocidade. Uma intérprete famosa de São Paulo até tricotava na cabine enquanto interpretava! Poucas pessoas têm esse dom da interpretação instantânea, que precisa de um conhecimento oral e aural das duas línguas e uma rapidez descomunal de processamento. Isto é uma habilidade totalmente distinta da do tradutor de textos, que sempre terá mais tempo para efetivar a transferência. Isto é, se não seja o tradutor de textos instantâneos, por exemplo, quando uma fala ao vivo de Presidente Obama é traduzida para legendas. Esse tipo de intérprete tem de digitar e não traduzir oralmente a fala na segunda língua. Ainda não há tecnologia de reconhecimento de voz suficientemente rápida. Conheci uma pessoa que tinha feito esse tipo de tradução. “Nunca poderia fazer interpretação de cabine”, me disse. “Toda a minha rapidez é nos dedos”!


vi) Quando se aprende uma língua nunca use tradução. 

O velho método “Grammar-Translation” ganhou má fama. Várias gerações de aprendizes de línguas ficaram muito presas às estruturas de sua língua mãe, e nunca conseguiram “pensar” na língua estrangeira. Mas a tradução é uma maneira excelente de conhecer as nuanças de uma língua estrangeira, e é um exercício muito bom traduzir para a língua estrangeira, e isso introduz o próximo ponto.


vii) Se nunca deve traduzir para uma língua que não é a sua

Isso foi o lema de muitos cursos superiores de tradução. Mas vejamos a posição de inglês hoje em dia. Tudo é traduzido para o inglês: livros, artigos acadêmicos, websites, relatórios de empresas multinacionais, placas de trânsito. Será que há número suficiente de gringos em todos os países que teriam a disposição e tempo para fazer todas as traduções necessárias? E será que é totalmente necessário sempre empregar um tradutor nativo. Nosso próprio compatriota que saiba a língua estrangeira muito bem não poderia fazer uma tradução quase igual à do nativo?


viii) A profissão de tradutor logo vai acabar

Não, mas vai mudar. E está mudando. O Google Translator tem melhorado muitíssimo nos últimos dois ou três anos. E, para a maioria dos textos, consegue produzir um texto legível. M
as precisa de uma correção cuidadosa. Eu, como a grande maioria dos tradutores, uso Google Translator para minha primeira versão, e depois corrijo; às vezes tenho de reescrever o texto completamente, outras vezes pouco. Mas sempre economizo tempo. Minha datilografia é lenta, e é quase sempre mais fácil corrigir do que digitar.

Podemos também pensar na tradução automática para fins militares, como em Afeganistão e Iraque, onde soldados norte-americanos têm utilizados equipamentos para traduzir pedidos e perguntas para as populações locais. O problema aqui é que não haja nenhum tipo de aparelho que possa reconhecer e traduzir as respostas aos pedidos e perguntas. Sempre haverá lugar para o ser humano.

A profissão do tradutor e intérprete está mudando muito, mas a segunda profissão mais velha do mundo não vai morrer logo!




[1]Ver o original e muitas traduções para o português em https://www.elsonfroes.com.br/framepoe.htm




John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ela acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito pela Editora Hedra. 
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