Os franceses sempre davam a impressão de ser linguisticamente etnocêntricos, recusando-se a falar outras línguas, especialmente o inglês. As traduções do grego e do latino entrando no francês nos séculos XVII e XVIII tiveram que ser cortadas, adaptadas e até censuradas para se conformarem às exigências francesas de bon goût, clarté, e bienséance Muitas são as histórias de turistas brasileiros que, sem falar o francês, foram para Paris para serem esnobados quando tentaram comunicar em inglês. No fim de tudo, o francês era a língua mais usada na diplomacia, nos contatos internacionais, e na cultura até a Segunda Grande Guerra. Também era a língua da Liga de Nações (o precursor da Organização das Nações Unidas (ONU)). Todos os brasileiros cultos sabiam falar o francês na belle époque e nos primeiros anos do século XX. Era a língua dos salões, da moda, da cuisine, dos saraus, e os litterati ricos como Oswald de Andrade sempre passavam a temporada, o verão brasileiro, na Cidade das Luzes.
Mas hoje em dia relativamente poucos brasileiros falam francês. Pergunto para minhas turmas de inglês na USP quem fala francês. São poucos. Coordeno um convênio com o Québec. Há uma procura enorme para estudar nas três universidades de língua inglesa, não de alunos da USP, mas de estudantes do mundo inteiro, e há relativamente pouco interesse em estudar nas excelentes universidades de língua francesa em Montréal ou na Ciadde de Québec, que, obviamente, exigem o francês.
Sim, o francês é ainda a língua da
haute couture, da
cuisinechique, e é usada bastante nas sedes da Comunidade Europeia, em Strasbourg, em Bruxelas, e em Luxemburgo, e é a língua franca, do ensino, e da administração em muitos países africanos como o Mali, a Chade, o Marrocos, a Argélia e a Tunísia. Também era a segunda língua de Vietnã e Cambódia, ex-colônias francesas, mas hoje em dia, como descobri na minha visita a esses países no ano passado, são só os velhos que sabem o francês, e a segunda língua é, claro, o inglês.
Também o poder econômico está se mudando, com a ascensão dos BRICs. Há muitos turistas
nouveaux richesquerendo gastar seus yuanes, rublos, rupias e reais nas lojas, restaurantes e hotéis de Paris.
Como são tratados? Bem, nem sempre tãobem. A Síndrome de Paris, ou
Pari shōkōgun, é o nome dado a grupo de sintomas sofridos por japoneses após ter visitado Paris. Chegam lá esperando encontrar um paraíso de gente chique, educada e formal, e não sabem com lidar com a rudeza de certos parisienses, as filas, a despersonalização, e o possível preconceito. Esse desapontamento pode resultar em alucinações, ansiedade, vômito, taquicardia, entre outos problemas.
Mas parece que hoje as coisas estão se mudando. Com a dominação do inglês no mundo inteiro, os franceses não podem mais lutar contra a força do inglês e a relativa fraqueza do francês, que é, hoje em dia, conforme estatísticas da
Organisation Internationale de la Francophonie somente a oitava língua mais falada no mundo e a sexta língua mais comum na Internet, com somente 4,3% do conteúdo, comparado com o 54,9% para o inglês, e 6,1% para o russo. E na Comunidade Europeia, com o ingresso de dez países do leste europeu em 2004, o francês perdeu bastante espaço.
Vai para Paris hoje e você pode usar o inglês em todas as lojas, sem ser esnobado! Há várias universidades particulares em Paris como a HEC, INSEAD e ESSEC oferecendo MBAs em inglês. Poucas universidades francesas entram na lista dos rankings das melhores universidades, e uma das razões parece ser a falta de abertura a outras línguas (lê-se inglês) e culturas, resultando em propostas também de ensinar certos cursos em inglês nas universidades públicas, o que enfureceu grande número de professores e políticos. Como se pode ensinar Proust e Molière em inglês! Assim se perderia a visão do mundo muito diferente da anglo-americana que a língua francesa fornece.
A influência inglesa na França pode ser visto no número crescente de palavras adoptadas do inglês, resultando no
franglais, a mistura de inglês e francês. Exemplos são
le snack bar,
le lifting, cirugia cosmética,
faire du shopping. No festival de Filmes de Cannes, o tapete vermelho não era mais
le tapis rouge mas
le red carpet. O uso de palavras como
cool, ou
supercool, até
hypercool, pronunciada
eepacool é uma maneira de jovens franceses mostrarem que pertencem ao mundo globalizado.
Savoir faire, expressão consagrada até em inglês, agora é
le know-how, pronunciado
no-‘ow. Num inglês sofisticado pode-se dizer
It’s de rigueur, mas em francês pode se dizer
C’est le must! Até há franceses que dizem
Good eating! e não
Bon appetit!
Ás vezes palavras inglesas são usadas para criar uma expressão que não existe em inglês, por exemplo,
le booze-cruising, uma rodada de vários bares.
Se geeker é participar em atividades típicas de
geeks, como jogar vídeo games:
Il est en train de se geeker devant son ordi[Ele está fazendo alguma coisa típica de
geeksno seu computador]. Outros exemplos são
footing,
jogging em ingles, ou cooper em português. Comediantes são
un one-man-show ou
une one-woman-show, e o prefeito de Nova York foi descrito em um jornal como
un self-made-man.
Temos a palavra nova,
foodieem inglês, alguém que tem grande interesse na comida, mas não
fooding, usada em francês para amor à comida.
People é usada para celebridades.
Home staging é mudar a aparência de sua casa quando vocês quer vendê-la para dar uma impressão mais positiva.
Relooking é a mesma coisa. E há muitas mais…
Aldo Rebelo já propôs a regulamentação de estrangeirismos entrando no português, mas é um fenômeno que é muito difícil controlar, especialmente hoje em dia, na época da Internet. E se o francês está se abrindo cada vez mais para o inglês, há pouca esperança que no Brasil essa enxurrada possa der controlada.
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito pela Editora Hedra.