Editorial NR

Planejamento e (very) young learners: três aspectos para considerar.

“Would you tell me, please, which way I ought to go from here?”
“That depends a good deal on where you want to get to,” said the Cat.
“I don’t much care where”, said Alice.
“Then it doesn’t matter which way you go,” said the Cat.

Alice’s Adventures in Wonderland by Lewis Carroll

A conclusão do Gato no País das Maravilhas resume perfeitamente um dilema que encontramos frequentemente entre professoras nos contextos de (Very) Young Learners [(V)YL], tanto em institutos de idioma quanto em programas bilíngues. A cada ano, famílias procuram institutos de idiomas com crianças cada vez mais novas, com o objetivo de proporcionar uma iniciação no aprendizado da segunda língua cada vez mais cedo.

Muitas se perguntam: o que eu devo fazer com minha turma de três anos? Como trabalhar um segundo idioma com crianças que ainda não sabem ler e escrever? O que fazer com o material que eles precisam preencher? Bem, como nos alerta o Gato de Cheshire, se você não sabe quais são os objetivos (de aprendizagem), não importa o que você faz.

Sem um bom planejamento orientado em objetivos de aprendizagem reais, você não estará ensinando as crianças, você estará entretendo, só que em inglês.

Claro que uma aula divertida vai engajar as crianças e deixá-las satisfeitas, mas ela será efetiva em termos de aprendizagem? E aí entra a importância do planejamento. Ele é um instrumento poderoso: ele conecta objetivos, expectativas para a faixa etária, as características e interesses do seu grupo e aquisição de segunda língua, tudo isso costurado com seu tempero pessoal!

A receita de sucesso para um planejamento para (V)YL é uma composição de três aspectos, então vamos pensar em como fazê-los na prática!

O PRIMEIRO é conhecer aquilo que é esperado para a faixa etária do grupo para o qual você está planejando, incluindo desenvolvimento motor, socioemocional e linguístico. Você sabe qual o tamanho esperado do vocabulário de uma criança de três anos em português? Você pode exigir o mesmo na língua adicional? Quando é esperado que uma criança conecte sua fala usando, por exemplo, and e because na segunda língua? Quais sons a criança normalmente pronuncia primeiro e os sons que a criança vai desenvolvendo ao longo da sua infância – até para não exigir que uma criança produza esse som quando ainda não desenvolveu a capacidade de articulá-lo?

Por exemplo, de acordo com Kid Sense Child Development, com 5 ou 6 anos, “Speech should be mostly clear and easy to understand, but some immaturities may still be noted (e.g. with ‘r’ and ‘th’ sounds).” Quantas vezes você cobrou um thank you ensinando as crianças de 3-4 anos a colocar a língua entre os dentes para falar repetidamente? São essas informações que nos ajudam a adequar as nossas expectativas à realidade. Mas tem muitos outros marcos de desenvolvimento dependendo da área. Podemos citar a pega do lápis para exemplificar. Como ela deve evoluir até o momento da criança ter que traçar letras e números, ou seja, quais marcas gráficas e registros você deve esperar que eles sejam capazes de produzir, até mesmo no material didático, caso a escola tenha optado por um.

Claro que existem intervalos para esses marcos de desenvolvimento, mas é muito útil que você tenha uma ideia daquilo que você pode esperar das faixas etárias que você ensina. E é importante buscar essas referências em lugares que sejam baseados em evidências, como as associações de pediatria e fonoaudiologia ou guias do ministério da saúde (do Brasil e de fora).

Faça esse levantamento assim que você souber de qual ou quais grupos você será teacher naquele ano ou semestre. Se for a primeira vez que você vai trabalhar com essa faixa etária, busque informações de boa qualidade sobre o que esperar em relação ao desenvolvimento das crianças e reveja essas informações periodicamente antes de fazer o planejamento.

De acordo com o documento Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue: “De qualquer modo, as competências e habilidades dispostas na BNCC devem constituir o arcabouço para a elaboração das diversas possibilidades de programas de educação plurilíngue do país.” Assim, estudar aquilo que a BNCC propõe para crianças da faixa etária do seu grupo é valioso e vai te ajudar a fazer um planejamento pertinente e com maiores chances de trazer bons resultados.

O SEGUNDO componente central para fazer seu planejamento são os seus objetivos, tanto para aquela semana quanto para aquele trimestre ou semestre. Quais as expectativas da escola para o semestre? Que as crianças adquiram determinado conjunto de vocabulário? Façam a correspondência entre a escrita
e o nome do número em inglês? Saibam as cores? Respondam perguntas que comecem com “Where’s the…”?

E aí, o que devemos seguir em termos de objetivos de linguagem pensando em uma criança bilíngue? Essa pergunta é mais complexa do que parece, já que a BNCC nem toca na questão de uma língua adicional na Educação Infantil e no Fundamental 1. Por exemplo, na BNCC para crianças de 3 anos temos o objetivo de aprendizagem (EI02EF01) que diz:

“Dialogar com crianças e adultos, expressando seus desejos, necessidades, sentimentos e opiniões.”

Agora, trazendo esse objetivo para a língua adicional, como você pode transformá-lo para criar propostas que apoie as crianças? Você poderia criar objetivos menores, como “Expressa opiniões pessoais usando I like e I don’t like” ou “Nomeia os sentimentos em contextos apropriados utilizando o vocabulário apresentado”.

Se a sua escola trabalha com material didático, você deve encontrar o que é esperado para cada unidade no próprio livro do professor. No entanto, o livro deve sempre ser visto como um apoio, um fio condutor que te indica os objetivos e sugere algumas atividades. Você ainda precisa mobilizar seus saberes para planejar a melhor forma de utilizá-lo e complementá-lo com práticas que atendam as necessidades específicas do seu grupo.

E já que estamos falando de sentir a temperatura, O TERCEIRO componente para um planejamento de sucesso é a escuta das crianças. Aqui, o termo escuta está sendo usado de forma bem ampla – ele inclui o que elas verbalizaram, aquilo que você observou e aquilo que você avaliou. Escutar as crianças garante que você não vai estar apenas “cumprindo o conteúdo”, mas sim que vai estar efetivamente propondo contextos de aprendizagem que serão capazes de levar suas crianças adiante. Um grupo de crianças está com uma dificuldade específica? Traga para o planejamento!

Proponha atividades que retomem, ampliem ou revisem esses conteúdos. Por exemplo, se o seu grupo não está com a terceira pessoa do singular bem estabilizada, traga um personagem (se você não tiver uma assistente) e faça uma proposta em que as crianças precisam falar sobre ele. Assim, você terá oportunizado muitos “He likes, he goes, he wants, he has” em um contexto envolvente.

Uma outra forma de escuta que pode compor seu planejamento é estar atenta para os interesses que emergem do grupo e que estão alinhados aos seus objetivos. Uma preferência por um material/história/tema está emergindo? Traga para o planejamento! Eles estão amando dinossauros? Será que você não pode aproveitar para ensinar comparativo e superlativo a partir desta escuta?

Com o tempo e a maturidade profissional, planejar vai se tornando mais fácil e mais rápido, embora nunca deva deixar de ser um momento altamente reflexivo. Tenha sempre
esses componentes em mente ao planejar: você vai perceber o quanto suas propostas serão mais efetivas e significativas para seu grupo.

Se desejar aprofundar-se mais nesse tema, conheça nosso curso Planejamento Bilíngue de 15 horas ou o curso de extensão de 120 horas e certificado pelo MEC “O fazer pedagógico bilíngue na Educação Infantil” da Bilinguistas.

Rebekah e Ana Carolina

Rebekah Sampson e Ana Carolina Paulista trabalham com ensino de inglês e escolas bilíngues há 20 anos e juntas atuam como formadoras de professoras bilíngues na empresa Bilinguistas, que oferece cursos livres e de extensão certificado pelo MEC em bilinguismo na Educação Infantil.

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