Book Review

Dicionário e prática de false friends: 365 False Friends

Qualquer pessoa que vê o nome de Amadeu Marques como um dos coautores de um dicionário bilíngue inglês-português já aumenta as expectativas sobre a obra. Afinal, Amadeu traz uma bagagem incomparável no desenvolvimento de dicionários de inglês para falantes de português. E esse detalhe é importante, especialmente quando tratamos de um dicionário de false friends na interface inglês-português: é importante saber adotar abordagem e foco que sejam de fato relevantes (necessários!) para quem lê.

Em Dicionário e prática de false friends: 365 false friends – one for each day of the year /inglês – português, Amadeu junta-se a Gisele Aga (que traz sua experiência de mais de trinta anos como professora, autora e editora na área de pedagogia de língua inglesa no Brasil) para produzir um tour de force lexicográfico que, em 463 páginas, contém 365 verbetes de false friends, um para cada dia do ano. E é um volume-dobradinha também: como o título da obra sugere, trata-se de um “dicionário” e de “prática” ao mesmo tempo.

Mas vamos por partes, começando pela Apresentação da obra: nela Amadeu e Gisele deixam clara a sua definição de false friends: “pares de palavras [que] são semelhantes na forma ortográfica e por isso convidam a acharmos que têm o mesmo significado” (p.3) em inglês e português. Além disso, ainda na Apresentação, os autores também ressaltam a ideia de que certas palavras são false friends sempre (por exemplo, parents) ou podem se tornar false friends dependendo do contexto de uso (por exemplo, attend). Mais adiante na obra, os elementos desse último grupo são descritos como a “turma que trabalha em meio expediente” (p.84), uma metáfora vívida para nos fazer lembrar que “falso amigo” não é uma classificação do tipo “é ou não é”, o tempo todo.

No dicionário, os 365 verbetes são numerados e organizados em ordem alfabética. As características apresentadas para cada verbete incluem: classe gramatical, transcrição fonética, acepções (apresentadas de forma não sintética – mais sobre isso adiante) e exemplos de uso. Frequentemente encontram-se também lembretes sobre termos com que o verbete rima (p. ex., café, cafe “rima com OK”, p. 80). Também com frequência um verbete é estendido em mais de um, como em sympathetic/sympathize, sympathise/sympathy. Após o último verbete aparecem vinte “locuções ‘internacionais’” que, como os false friends, “não são o que se parecem” (p.440) (por exemplo, Chinese whispers e German measles) com comentários sobre seus sentidos.

As acepções de cada verbete são apresentadas de forma não convencional, muitas vezes como em uma conversa com o leitor. Esse tom coloquial permeia outras partes componentes dos verbetes. Por exemplo, nos muitos boxes azuis com informações suplementares que podem incluir resumos do verbete (“Não podemos confundir: Disprove […] Disapprove (of) […], Reprove […], Flunk […]”, p. 169), comentários sobre expressões idiomáticas ou canções infantis associadas ao verbete, origens de palavras ou word stories que descrevem eventos históricos, episódios pitorescos na vida de pessoas famosas, detalhes sobre lugares no mundo, filmes, comidas, entre outros.

A coloquialidade também está presente ao longo da obra nos originais Filminhos (boxes em que os autores convidam quem lê o dicionário a visualizar cenas para contextualização ou prática dos verbetes) e em comentários curtos, ressaltados em cor azul e em itálico, apresentando a voz dos autores diante de uma informação dada. Por exemplo, depois de um boxe azul que inclui um comentário de Tom Jobim, lemos o seguinte: “Saudades de Tom Jobim e do seu tempo” (p. 236).

Ao final de cada verbete vêm atividades para prática do conteúdo, sinalizadas por um ícone “lápis”. Tipicamente, são atividades de múltipla escolha que requerem tradução de trechos (citações, provérbios, sites, anúncios publicitários e frases criadas). Outras atividades (sinalizadas com um ícone “marca de verificação”) incluem verificações rápidas dentro de um verbete. Ao final de cada ciclo de 100 verbetes há uma seção para revisão: elas incluem atividades de múltipla escolha, correspondência e identificação de traduções erradas.

Na parte final do livro encontram-se as seguintes seções adicionais: Chave de Pronúncia / Outros Símbolos, Referências Bibliográficas, Índice e Gabarito. Nem todas essas seções são mencionadas na Apresentação e talvez uma descrição mais detalhada da organização e conteúdo do dicionário, na sua parte introdutória, pudesse facilitar o manuseio da obra por quem a lê.

Concluindo, Dicionário e prática de false friends: 365 false friends – one for each day of the year / inglês – português é um recurso que traz um vasto acervo de informações (quantitativa e qualitativamente) que pode ser muito útil para
quem trabalha em ensino, pesquisa, lexicografia, na área editorial, entre outros. A obra pode ser usada como referência ou mesmo ser fonte de um nugget de informação diária, como seu título sugere. Minhas expectativas foram superadas. Se você ler um verbete por dia, ao final de um ano você não apenas terá aprendido muito: terá rido, terá se surpreendido, terá aberto portas para novas buscas sobre a língua inglesa e sobre o mundo. Como dizem os autores na Apresentação, “toda cultura é útil” (p.4).

Este dicionário é o resultado de uma longa, cuidadosa e – believe it or not – prazerosa pesquisa sobre algumas das palavras escritas em textos em inglês, que podem confundir o leitor quanto ao seu real significado. A seleção dos “false friends” é subjetiva, reflete a opinião dos autores e não pretende ser completa; certamente, outros autores teriam outras preferências quanto à seleção dessas palavras enganosas. Entretanto, os 365 “false friends”– one for each day of the year – por suas peculiaridades fazem jus à seleção, e o número dessas palavrinhas enganosas já está “de bom tamanho” para uma obra deste porte. Uma das principais características da obra é o trato popular da língua, ou seja, ela não busca se sustentar em amplas referências teóricas ou visões técnicas de especialistas acadêmicos. Pelo contrário, a obra sai da rua para entrar no livro, do cotidiano para a escrita, do uso ao registro, baseada no conceito de que o movimento da língua oral é o motor da sua dinâmica e não o rebuscamento teórico supostamente necessário para uma língua ser viva e pulsante. Entretanto, isso não significa que a obra não tenha rigor. Ao contrário, ela é bastante rigorosa e específica na abordagem e exploração dos false friends. O mais curioso da obra e seu maior mérito é que, ao entrar em contato com um verbete que se domina em português – mesmo em inglês – acaba-se por ampliar as possibilidades de uso, em duas línguas, de palavras que sempre achamos que tivessem seu significado limitado.

Denise Santos

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