Veja agora mesmo a nova edição #88 da Revista New Routes na íntegra!

AcervoBlog

Aniversário de William Shakespeare

Em 23 de abril, fiquei surpreso quando vi que, aqui em São Paulo, havia tantas comemorações dos 450 anos do nascimento de William Shakespeare. Havia uma encenação dos solilóquios, de Claudiane Carvalho, no Teatro Bibi Ferreira; uma leitura na Cultura Inglesa, do ator inglês, Ian Flintoff; e uma apresentação de uma versão gay de Romeu e Julieta na Biblioteca Mário de Andrade. Dei entrevistas à TV Cultura, à Folha de São Paulo, e à Editora Abril. São Paulo se interessava por Shakespeare. E por quê?, me perguntaram os jornalistas, o mundo é tão fascinado por Shakespeare. Shakespeare ainda nos diz muito, eu disse. Quem nunca se sentiu ciúme, como Otelo? Quantos têm na família um avô que está se tornando caduco, como o Rei Lear? E em quantas famílias há uma briga sobre a herança entre as suas filhas, com algumas tentando influenciar o velho para lhes deixar todo seu dinheiro?  E há muitos jovens, como Hamlet, que odeiam, e que gostariam de matar, seu padrasto. E as dores do amor jovem de Romeu e Julieta? E há muitos homens casados com mulheres megeras como nos casos de Macbeth e Petruchio, em A Mejera Domada! Nesta peça, tudo dá certo, é uma comédia, ao final de tudo, mas a dominação de Lady Macbeth conduz seu marido ao assassinato do Rei Duncan e as consequências horríficas. As peças ainda comovem, tal vez mais do que nunca, os corações do mundo inteiro. O famoso crítico norte-americano, Harold Bloom, disse que Shakespeare foi “o inventor do ser humano na literatura ocidental”.
As peças foram levadas para todas as partes do mundo com adaptações e traduções. As versões românticas dos irmãos Charles e Mary Lamb, Tales from Shakespear [Contos de Shakespeare], (1807) dirigidas às crianças, eram muito popular fora de Inglaterra, especialmente no Oriente.
Podemos examinar o caso de Otelo, uma das peças mais adaptadas de Shakespeare. Houve duas adaptações para  a ópera, a mais famosa senda a de Giuseppe Verdi com libreto de Arrigo Boito (1887), frequentemente considerada a maior ópera de Verdi. A versão da ópera para o cinema foi feita por Franco Zeffirelli em 1986, estrelado por Plácido Domingo como Otelo.
Várias versões para a dança também foram feitas, como a do Ballet de Hamburgo (1985), a do o San Francisco Ballet (2002), a do New York City Ballet (1967), em 1967, a de La Scala (1976), e a do Ballet Louisville (1980).
Além disso, temos as versões fílmicas, destacando a de Orson Welles (1952); a de Laurence Olivier (1965), baseado na produção do National Theatre Company de Inglaterra; e a de Trevor Nunn (1989) filmada em Stratford, com o cantor lírico Willard Branco no papel principal, contracenando com o Iago de Ian McKellen.
A primeira grande produção Hollywoodiana na tela lançando um ator negro como Otelo só veio em 1995, com Laurence Fishburne como Otelo ao lado do Iago de Kenneth Branagh. Este filme foi feito durante o julgamento de assassinato de O. J. Simpson, o jogador de futebol negro norte-americano, que foi acusado de matar sua mulher branca, assim fazendo paralelos óbvios.
Entre as adaptações fílmicas podemos citar All Night Long [A Noite Inteira] (1962), um filme britânico em que Otelo é Rex, o líder de uma banda de jazz; Capture My Soul [Captura Minha Alma], uma versão rock; Othello, the Black Commando [Otelo, o Soldado Negro] (1982) no qual o mercenário negro se apaixona pela filha de um senador norte-americano; e a adaptação mais recente, O (2001), que acontece dento de uma high school norte-americana, centrado nos estrelas da equipe de basquete. Também em 2001, houve uma versão produzida pelo canal de televisão britânica, ITV, na qual Otelo é o primeiro chefe negro da Polícia Metropolitana de Londres.
Há uma tradição forte de encenações de Othello na Índia A tradição de encenar as peças de Shakespeare começou em 1607 a bordo de navios da Companhia das Índias Orientais. Seguiram em vários teatros em Calcutá e Bombaim, os grandes centros da Índia Imperial. E quando o inglês foi estabelecido como o idioma oficial colonial em 1835, o estudo de Shakespeare tornou-se obrigatório nos colégios. Shakespeare estabeleceu-se como participante chave do colonialismo da Grã Bretanha.
Mas também traduções foram feitas para várias das muitas línguas vernáculas, começando, com O Mercador de Veneza para o bengali, e A Megera Domada para o gujarati, ambos em 1852. Muitas traduções foram realizadas para as principais línguas indígenas entre 1900 e 1930, com O Mercador de Veneza sendo a peça mais popular, seguida de Comédia dos Erros, mas com o movimento de independência, culminando na própria independência da Índia em 1947, houve uma queda de interesse na obra do Bardo.
Porém, hoje em dia Shakespeare está de volta, às vezes ligado com as tradições indianas milenares, como na versão de A Tempestade, adaptada à forma tradicional do drama sânscrito (2000); às vezes fazendo ligações com a situação pós-colonial da Índia como o Otelo bilíngue de Royston Abel em 1999; e às vezes adaptado à situação contemporânea da Índia.  Tal é o caso dos filmes de Vishal Bhardwaj: Maqbool (2003), baseado em Macbeth, e Omkara (2006), que segue Othello. Os dois retratam o submundo dos gangsters na Índia contemporânea. Seguem próximas às tramas de Shakespeare. Todas as personagens de Othello têm seu equivalente, mas, para amarrar a trama um pouco mais, Bhardwaj faz algumas mudanças: Rajan (Rodrigo) vai se casar com Dolly (Desdemona) no começo do filme, e a própria mulher de Langda (Iago), Indu (Emília), mata seu marido quando descobre a verdade sobre insinuações e mentiras de Langda. Também, como todos os filmes de Bollywood, Omkara tem de ter música, e assim aumenta-se o papel de Billo (Bianca), que, além de prostituta, é uma excelente dançarina muito sexy na festa de Chipre quando Kesi (Cássio) fica bêbado, cantando Beedi Jalaile, que tornou-se popular no Brasil como a tema de abertura da telenovela, Caminho das Índias.
E a minha adaptação preferida de Othello? Otelo da Mangueira, de Gustavo Gasparani, localizada no universo da tradicionalíssima Estação Primeira. O samba canção de Cássio é escolhida pelo Presidente da Escola de Samba, Otelo, em preferência à do Dirceu (Iago), assim incitando o ardiloso Dirceu a emaranhar todos em sua trama. E Iago sambava muito bem…

__________________________________________________
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.
Related posts
BlogInglêsO que há de novo

FAN CULTURE

AcervoBlogEditorial

Gestão educacional em contextos híbridos: desafios e soluções para o futuro próximo

BlogInglês

Applying Science of Learning Strategies with AI

AcervoBlogInglês

The social challenges of academic mobility in Brazil and their impact on the TOEFL IBT

Assine nossa Newsletter e
fique informado

    E-mail

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Espere um pouquinho!
    Queremos mantê-lo informado sobre as principais novidades do mercado acadêmico, editorial e de idiomas!
    Suas informações nunca serão compartilhadas com terceiros.