A recente onda de frio me faz pensar de algumas das diferenças culturais que encontrei , e ainda encontro, entre o Brasil e a Inglaterra , ou, para ser mais correto, o Reino Unido. Vejo meus colegas na USP trabalhando de casaco. Lá fica mal se não tira o casaco quando se está dentro de casa. “Já vai sair?” “Onde você vai?” se sempre pergunta a alguém que não tira o casaco dentro de casa ou no escritório. Claro, lá, todos os interiores têm aquecimento, e aqui são poucos que têm. Meu amigo canadense, Norman, que mora em Curitiba, passa mais frio aqui no Brasil do que no Canadá. Uns meses atrás, um candidato à pós-graduação na USP, num dia quando a temperatura estava em torno de 20 graus, entrou na sala para ser entrevistado de casaco, impensável na Inglaterra. “Você está doente?”, perguntei, e quando ele disso “Não”, quase o reprovei na hora, mas minha colega me lembrou que no Brasil tal atitude não demostra nenhuma falta de respeito…
E qual seria a maior gafe social que um estrangeiro pode fazer? Uma candidata seria, quando alguém te dá carona, ficar no banco traseiro quando o passageiro no banco da frente desce. Em muitas ocasiões vi uma troca de posições para andar uns 50 metros, só para dar a impressão que quem está dirigindo o carro não é um motorista particular.
E no Brasil você sempre tem de oferecer comida. Até quando só sobram umas migalhas no prato, ou se está terminando de chupar um sorvete: “Você está servido?” tem de perguntar. E vários brasileiros que conheço tiveram a experiência na Inglaterra de chegar à casa de amigos ingleses, que naquele momento estão almoçando ou jantando, e os ingleses continuam comendo não oferecendo nada aos famintos brasileiros!
Nasci em Birmingham em 1956, e cresci numa Inglaterra que ainda se lembrava do racionamento da Segunda Grande Guerra, que somente acabou em 1954, nove anos após o fim da guerra, e onde jogar comida fora era o maior dos pecados. Quando eu, criança enjoado, recusava qualquer comida, era servida na próxima refeição… Então imagina minha surpresa ao chegar ao Brasil em 1979 para ver tanta fartura e desperdício de comida. Na sala de aula de inglês usava uma entrevista com um professor visitante à PUC-São Paulo, Maurice Broughton, que descrevia um almoço na Bahia no qual, ele, recém chegado ao Brasil, como bom inglês, comia tudo que estava no prato, e a anfitrião enchia o prato de novo. Aconteceu várias vezes. Ele não tinha aprendido que era de bom tom deixar um pouco, ou bastante, comida no prato, para mostrar que você não queria mais. Mas as coisas estão mudando no Brasil, e também na Europa. Lá, é possível comprar comida muito barata hoje em dia, e aqui o preço da comida aumentou muito. E também acho que o surgimento dos restaurantes por quilo é parcialmente resultado desse hábito de deixar comida no prato. Ai, deixar comida no prato é jogar dinheiro fora. E alguns restaurantes te dão uma multa se deixa comida no prato. E lá na Inglaterra até vejo minha mãe, que antes nunca jogava nenhuma comida fora, enchendo a lixeira com comida não tão podre!
Mas há uma ocasião quando os ingleses sempre vão te oferecer comida: quando você vai num funeral: após o funeral sempre há comida, e geralmente, bebida, como nos famosos “wakes”, às vezes verdadeiras festas, na Irlanda. Os funerais sempre acontecem de uma semana até dez dias após o falecimento, para dar tempo para a família que mora longe chegar, e após a viagem, o culto, e o enterro, dar comida e bebida aos convidados é uma maneira de agradecer a presença da família e dos amigos. Aqui no Brasil fui a vários enterros, e nunca ninguém me ofereceu nem um cafezinho! Falta de respeito comer em funeral, me disseram…
Diferenças entre climas e culturas sempre trazem problemas. Meu irmão Peter se casou com uma brasileira, Ivete. Logo depois de casar os dois estavam preparando um jantar para mim no frio de janeiro. Já há sempre o costume de aquecer os pratos, no forno ou no vapor, antes de servir a refeição, mas Ivete não sabia. Ivete colocava os pratos na mesa, Peter as tirava para colocar no forno para esquentar. Várias vezes… Nessa época Ivete errava algumas palavras em inglês, e trocava “chicken” e “kitchen”. “Peter, can I get the kitchen? Where are the plates? In the chicken?” “No, the plates and the chicken are in the oven in the kitchen.” “Ok, I’ll get the kitchen out of the chicken.” E, finalmente, jantamos!
Aqui no Brasil não há nada mais importante do que o banho. Meu colega Alain fala para os professores visitantes franceses que ele recebe, já no aeroporto, que aqui têm de tomar pelo menos um banho por dia! E os europeus hoje em dia, com mais duchas, água quente 24 horas por dia, são mais limpos do que antes. Mas para a minha avô, não havia nada mais perigoso do que o banho! Banho de banheira, claro, porque chuveiro nem existia. Nasci numa casa numa vila de operários perto do centro de Birmingham que nem quarto de banho ou toalete tinha – eram compartilhados com os vizinhos. Assim, tomar banho exigia um planejamento cuidadoso para marcar dia e horário e esquentar água, e raras eram as pessoas que tomavam banho mais de uma vez por semana. Uma alternativa era os “public baths”, que também tinham piscinas para natação. Uma camada de sujeira protegia bem. E para chegar ao quarto de banho se tinha que atravessar o pátio central do grupo de casas, o “yard”, geralmente no frio, uma aventura durante a qual se podia pegar tudo e qualquer tipo de resfriado, gripe e até pneumonia. Melhor evitar tomar banho. E minha avó, Nellie, morreu aos 93 anos!
Me lembro que sempre tomava banho aos domingos, só. E, já em outra casa maior, numa banheira de zinco enfrente da lareira, antes dos meus dois irmãos mais novos. Eu, como o mais velho, tinha direito à água limpa!
Os tempos mudaram… mas pouco tempo atrás fiquei na casa de uma amiga em Dublin, uma república que ela dividia com outras pessoas. Queria tomar banho. Não! Aquele dia era a vez de um garoto que morava lá. Tive de ficar sem!
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.


Estou fazendo uma pesquisa para a escola sobre as diferenças culturais entre o Brasil e a Inglaterra e este texto me ajudou bastante, tanto na pesquisa quanto para aprender mais sobre a Inglaterra -, país que desejo conhecer-. Obrigada!