por Denise Santos
Estou no trem a caminho de Londres. Do outro lado do corredor está sentada uma jovem que mexe em seu telefone celular, naquele clique-clique-clique que quebra o silêncio no vagão. A moça dá um espirro e, nesse momento, eu penso: “Ela é brasileira.” A sua fisionomia e maneira de vestir reforçam minha hipótese, mas é importante ressaltar que minha inferência sobre a nacionalidade da minha copassageira de trem não é feita a partir de suas características étnicas ou comportamentais, mas sim de sua produção oral: ao espirrar, ela produziu uma cadeia de sons que soou como “Aaaatchim!”, como os falantes de português costumam fazer. Falantes de inglês, ao espirrar, produzem algo como “Atchoo” (rimando com chuchu). Sem dúvida, eu poderia também ter inferido que ela era de outro país lusófono, mas pensei logo no Brasil, talvez por minha origem brasileira!
Poucos minutos depois, minha hipótese se confirma. O telefone da moça toca e ela atende a chamada, dizendo “Alô, oi tudo bem?” num sotaque carioca. Sim, brasileiríssima. No meu canto no trem, acho graça do episódio e fico pensando como é incrível que se possa fazer inferências sobre a língua materna de uma pessoa a partir de um simples espirro!
A situação acima traz à tona alguns aspectos importantes para todos que aprendem e/ou ensinam línguas estrangeiras. O primeiro aspecto, comentado acima, diz respeito ao fato de que falantes de línguas diferentes podem “produzir sons” distintos não apenas ao espirrar, mas também ao expressar dor, alegria, surpresa, entre outros. Por exemplo, falantes de inglês articulam “ouch” (que rima com “couch”) ao sentir dor; brasileiros dirão algo como “ai” ou “ui” nesses casos.
Outro aspecto relacionado à situação acima, e ainda no âmbito das onomatopeias, diz respeito às formas escritas convencionalizadas em diferentes línguas para indicar “barulhos” como buzinas tocando, corações batendo, trens se movimentando, relógios ticando, entre outros. Apesar de esses “barulhos” serem muito parecidos ou mesmo idênticos em diferentes partes do planeta, sua representação por escrito poderá ter variações interessantes entre diferentes idiomas. As formas de se representar sons produzidos por animais é especialmente relevante nesta discussão e o quadro a seguir dá alguns exemplos sobre onomatopeias que variam entre o português e o inglês.
Obviamente, a listagem acima não pretende ser uma relação exaustiva de onomatopeias nas duas línguas. Sua função é predominantente ilustrativa, ressaltando como as formas de se representar alguns sons entre as línguas podem ser tão diferentes! Caso deseje ter acesso a uma listagem mais completa de onomatopeias em inglês o leitor pode visitar o site https://www.writtensound.com/index.php.
Se você ensina e/ou aprende inglês, você pode desenvolver seu conhecimento sobre o assunto observando e refletindo sobre alguns usos de linguagem que remetem direta ou indiretamente a onomatopeias, por exemplo:
– Leia histórias em quadrinho impressas ou on-line (por exemplo, em https://www.al.com/comics/) e observe as onomatopeias utilizadas, comparando-as com as formas corrrespondentes em português.
– Observe o ícone
e reflita: A que o ícone se refere? O que pode ter levado tal sitede relacionamento a receber o nome twitter?
– Familiarize-se com a brincadeira infantil “Knock, knock, who’s there?”, muito popular em países anglófonos. Para detalhes vá a https://en.wikipedia.org/wiki/Knock-knock_jokee veja exemplos em https://www.enchantedlearning.com/jokes/topics/knockknock.shtml. Reflita: o que você acha da brincadeira? Que benefícios ela pode trazer para quem aprende inglês? Há em português alguma brincadeira que faça uso de rimas de forma semelhante?
– Faça uma pesquisa em nursery rhymes e poemas infantis procurando por onomatopeias. Você vai encontrar exemplos interessantes em, por exemplo, Old Mac Donald Had a Farme Hickory Dickory Docke nas histórias escritas por Dr Seuss.

Denise Santos tem bacharelado e licenciatura em Português e Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é mestre em educação em língua inglesa pela University of Oklahoma (Estados Unidos) e doutora em linguística aplicada pela University of Reading (Inglaterra). Tem participação frequente em congressos nacionais e internacionais, e possui vários trabalhos publicados em livros e revistas acadêmicas no Brasil e no exterior, bem como livro didáticos para o ensino de inglês e de português como língua estrangeira. É de sua autoria a coleção “Estratégias” publicada pela Editora DISAL.





