
Uma reportagem sobre a proibição do uso de slang, ou gíria, num colégio de Londres, tem levantado bastante pó nos jornais e na mídia social no Reino Unido nas últimas semanas. A Harris Academy, Upper Norwood, no sul de Londres, cujos estudantes são geralmente de bairros pouco privilegiados, proibiu o uso de “ain’t” [não], “innit” [não é]e“coz” [porque]. A ideia é que os alunos deveriam aprender a se expressar de uma maneira mais correta para poder dar uma boa impressão numa entrevista para conseguir um bom emprego ou uma vaga na universidade.Outras palavras banidas são “like” [como], “bare” [muitos],“extra” [muito], “you woz” [vocês foram ou eram]“we woz” [fomos, éramos].
Não há castigo em si, mas os alunos serão encorajados a refletir no seu uso de slang.
Essa proibição resultou num número de críticas de professores de estudos da linguagem e de linguística.
Terry Victor, editor do dicionárioNew Partridge Dictionary of Slang and Unconventional Englishnão concorda com a proibição e dá o exemplo de muitos políticos que começam sentenças com “Basically”. E “ain’t” tem uma história interessante: embora considerado de baixo padrão hoje em dia, na primeira parte do século 19, era de uso comum entre membros da aristocracia, e era usada por escritores como Charles Dickens.
Em “The joysof slang” [Os prazeres de slang] Charles Nevin discute a criatividade do slang contemporâneo.
Dá o exemplo de “bare”, que, cujo uso atualeu desconhecia. Quer dizer “muito”, com em“There’sbarepeoplehere” [Há muita gente aqui], e como muito slang, “bare” aqui tem um significado que o oposto do que parece,“nu”, ou “quase nada” como em “barely”.Encontra-se a mesma ideia nos usos de “bad” [mau>bom], “wicked” [malvado>legal], e “cool” [morno>ótimo]. Essa técnica é típica dos gatunos da época vitoriana na Inglaterra, que também usavam com o back slang, que colocava as palavras de frente para trás, para esconder as suas mensagens da policia.Assim “boy” virava “yob” [baderneiro].
Outras palavras “banidas” demostram criatividade: “extra” com adjetivo [grande], mas é além do grande. E “innit” introduz no inglês o “n’est-ce pas?” do francês, mas muito mais econômica e prática de que todas as “tag questions”, “isn’t it, haven’t you, aren’t we, musn’tyou, shouldn’t they”. Me lembro das horas de gastei tentando ensinar “tagquestions” sem o menor êxito!
Em outro blog falei da criatividade de CockneyRhyming
No estudo que fiz sobre as traduções do Clube do Livro, e posteriormente publicado em O Clube do Livro e a Tradução (EDUSC, Bauro, 2003), descobri um desgosto semelhante ao slang na parte de editoras e tradutores. Nas suas traduções de livros clássicos, as editoras brasileiras evitaram, e ainda evitam, qualquer linguagem de baixo padrão. Assim, os clássicos são deturpados na tradução. Os linguajares das obras de Zola e Balzac são perdidos; o inglês da Escócia de Robert Louis Stevenson some; o dialeto de Yorkshire do criado Joseph nas oito traduções do Morro dos Ventos Uivantestorna-se um inglês padrão; não há nenhuma definição entre o inglês sulino branco e negro nos romances de William Faulkner; e em David Copperfield, de Dickens, o vilão, Uriah Heep, fala de uma maneira se auto subestimando, propositalmente perdendo o “h” inicial em seu leme “Your ‘umble self”, demostrando sua falsidade por meio da fala. As traduções brasileiras nunca tentam recriar esse elemento importante. Em Huckleberry Finn, de Mark Twain, o escravo fugitivo, Jim; o branco pobre, Huck; e os brancos da classe média falam na mesma norma padrão do português. Apesar de Guimarães Rosa, não há nenhuma tradição brasileira de utilizar o substrato coloquial urbano na literatura, eas traduções, que são muitas vezes utilizadas nos colégios, sofrem certa pressão para se conformar às normas correntes.
E essa visão conservadora a respeito doslang pode ser visto na opinião do/a tradutor/a anônimo/e de Oliver Twist de Dickens, editado pela Editora Melhoramentos (s/d), mas provavelmente dos anos de 1940:
No original bob e magpie que em slang significam um xelim e um meio pêni. É difícil, se não impossível, verter o slang inglês e ainda muito mais, o americano. A língua portuguesa pouco slang tem, o que a torna duma clareza e concisão admiráveis quando bem escrita. Em nossa opinião, o slang, em vez de ser uma caraterística de progresso lingüístico, é um sintoma de decadência. É filho do crime, da ignorância e da excentricidade mórbida. Para honra do genial Dickens, devemos dizer que ele emprega muito discretamente e muito raramente o slang nas suas obras (nota de pé de página do/a tradutor/a, p.56).
Toor rul lol loo, gammon and spinnager, the frog he wouldn’t, and high cockolorum, slang de gatunos, provavelmente em uso no tempo de Dickens, e agora talvez afundado no esquecimento, como é próprio dessa linguagem vil e convencional (nota de pé de página do/a tradutor/a, p.84).
O slang deve ser evitado, é ligado ao crime, e tudo que é ruim. E, na tradução, melhor evita-lo, e traduzir para um português padrão. E como fiquei contente para saber que no Brasil pouco slang tem!
Minha filha pequena de 18 meses, Marcela, chora e berra quando não consegue o que ela quer. “She cries” sim, mas o verbo “cry” também pode ser por causa de dôr, e não demostra a sua força e raiva. Sempre me encontro usando a palavra dialetal de Birmingham e cercanias, “blart”, que descreve exatamente que ela faz, berra, alto, sem a menor razão, para impressionar, para dar um show para chamar atenção.
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.

