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Por uma educação bi/multilíngue insurgente.

Organizadoras: Fernanda Liberali, Antonieta Megale e Daniela Aparecida Vieira. 1ª ed. Editora Pontes, 2022.

O livro “Por uma educação Bi/Multilíngue insurgente”, organizado por Fernanda Liberali, Antonieta Megale e Daniela Aparecida Vieira, publicado pela Editora Pontes, em 2022, é referência básica para cursos de formação de professores que se pretendam críticos-transformadores e obra obrigatória para os envolvidos na educação bi/multilíngue no Brasil. Ao longo de 130 páginas, distribuídas em 10 capítulos, a obra, por meio de temas instigantes, críticos e necessários, denuncia um desejo de luta, de mudança e de transformação. Uma obra potente que se coloca como uma resposta e uma reação à demanda histórica no país: as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Bilíngue, aprovada pelo MEC mas ainda aguardando homologação. As ideias apresentadas pelo documento, conforme apontam as próprias organizadoras, causaram tanta indignação que logo se formaram grupos de trabalho para elaboração de uma resposta ao parecer. Assim, a obra discute, denuncia e anuncia os efeitos e defeitos dessa política pública ainda em construção.

Amparada pelo referencial teórico da decolonialidade e da interculturalidade crítica, a obra pode ser entendida como um manifesto contra a colonialidade, “uma greta, uma fissura nas rígidas propostas de pensar a educação em línguas múltiplas no Brasil” (p. 15). Os capítulos são de autorias coletivas, demonstrando o envolvimento de mais de 40 autores, professores e pesquisadores envolvidos na área de educação bi/multilíngue e nos mais variados contextos, o que faz com que as produções dos capítulos sejam ricas, potentes e pensadas em colaboração por aqueles que conhecem o cenário bi/multilíngue do país.

O livro é dividido em duas partes: Na primeira, traz princípios e concepções para uma educação bi/multilíngue que se pretenda crítica e alinhada a pesquisas pelo viés da decolonialidade e da interculturalidade crítica. No primeiro e no segundo capítulos, fica nítido que as autoras pretendem retomar as bases, princípios e concepções que orientam uma educação bi/multilíngue que busca desestabilizar o sistema colonial. Assim, enfatizam que a função de contexto bi/multilíngues é a construção de repertórios que nos possibilita criar novos modos de representar, agir e ser neste mundo, ou seja, de favorecer a mobilidade. As autoras discutem a visão heteroglóssica de língua e se debruçam pelos conceitos de linguagem, mobilidade, multimodalidade e translinguagem, defendendo que os objetivos de uma formação bi/multilíngue está para além de questões que perpassam o ensino por meio de uma língua adicional: a criação de repertórios potentes para gerar mobilidade e acesso a outros discursos e perspectivas. No segundo capítulo, há a defesa da abordagem translíngue como forma de desconstrução de imagens estereotipadas, como base para a escuta sensível dos professores e aos processos identitários dos alunos. No terceiro capítulo, temos a discussão das bases de uma formação docente por essa perspectiva: reconhecendo que o Brasil tem cenários diversos e multiculturais, os autores defendem que a formação deve atender aos diferentes propósitos e realidades distintas, deve ir além do escopo linguístico e deve ter uma visão heteroglóssica de língua. Discutem testes de proficiência e a hierarquização das línguas, defendendo uma formação linguístico-discursiva para todos os professores (inclusive, os de língua de nascimento). O capítulo 4 traz reflexões sobre elementos cruciais à avaliação em contexto bi/multilíngue, apresentando a concepção de avaliação por esta perspectiva e enfatizando que a avalição deve dar conta do conteúdo e da língua, levar em consideração as especificidades bi/multilíngues e culturais, valorizar a língua de nascimento e desenvolver sistema avaliativo apropriado para a educação bi/multilíngue que dialogue com as exigências do sistema educacional brasileiro. As autoras sugerem uma avaliação com translinguagem e a avaliação baseada no desempenho – como sendo ideais a esse contexto porque possibilita aos alunos demonstrarem o que sabem e o que conseguem fazer com o repertorio linguístico que possuem.

A segunda parte da obra foca nos múltiplos contextos de educação bi/multilíngue no Brasil: a Educação de migrantes de crise e o ensino de português como língua adicional, Educação de/para (as) fronteiras, Educação indígena, Educação de surdos e a Educação bilíngue de línguas de prestígio. Nesses capítulos, os autores denunciam, anunciam e argumentam com exemplos próprios de instituições do Brasil afora que têm realizado e trabalhado em prol desses contextos, mostrando suas especificidades, necessidades e relevância. Todos os capítulos partem da visão decolonial e intercultural e defendem a concepção de educação bilíngue pautada por essa visão.

Assim, o livro traz vozes experientes, potentes, corajosas e críticas, de quem, de fato, faz educação bi/multilíngue no Brasil e acredita na decolonialidade como um projeto a ser assumido. A obra defende que, por meio da análise crítica, do questionamento, do reconhecimento das diferenças e do desenvolvimento de agencias transformadoras por meio da decolonialidade e da interculturalidade crítica, podemos descontruir padrões pré-estabelecidos, o que nos permite repensar as visões e práticas da educação bi/multilíngue. Uma leitura obrigatória para professores, gestores e pesquisadores.

About author

Michele Salles El Kadri é Doutora em estudos da Linguagem e professora Associada da Universidade Estadual de Londrina. É coautora da coleção Global Kids – Portfolio Bilingue e corresponsável pela implementação da Primeira escola bilíngue pública do Paraná.
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