Por John Milton*
A primeira foi o inglês. Claro, foi a minha língua mãe, mas, sendo de uma família da classe operária de Birmingham, falei com sotaque forte de Birmingham, à la Ozzy Osbourne, que, como comentei em outro blog, tem muito baixo prestígio. Na idade de 11 anos ganhei bolsa para o “melhor” colégio de Birmingham, King Edwards School, e meu sotaque mudou de Ozzy Osbourne: “Oi loike it”, “Oi’ll give it foive” para a RP (Received Pronunciation) da BBC. Na King Edwards School nenhum dos meninos, quase todos filhos de professores, advogados, e médicos falava “noin” ou “noice”.
Na escola primária meu contato com o francês tinha começado com as aulas de Mrs Beedle nas quais aprendi que meu nome em francês era Jean, que não gostei muito porque Jean em inglês é nome de mulher! Mas Mrs Beedle brigou com o Diretor, Mr Burgess, e as aulas de francês pararam.
Na cidade grande mais bastante provinciana de Birmingham nos anos de 1970 pouca gente se interessava em estudar línguas estrangeiras, e é ainda o caso. Deixem os estrangeiros falar inglês! Qual é a utilidade de aprender línguas estrangeiras? Em King Edwards School aprendemos latim e francês desde o primeiro ano, mas desconfiava-se de um menino que falasse bem uma língua estrangeira. Não era muito bem visto pelos pares.
No terceiro ano comecei a aprender o espanhol. Podia ter escolhido o alemão, mas parecia muito difícil… E fiz os “O-Levels” e depois os “A-Levels”, concentrando-me em espanhol, francês e literatura inglesa. Não conversamos muito nas línguas estrangeiras, mas lemos bastante, e tivemos de ler os grandes clássicos: Molière, Corneille e Racine em francês, e Calderón de la Barca e Lope de Vega em espanhol.
Fui para a França no verão de 1972, junto com um colega de classe, Jock Cameron, fazendo auto-stop pelos povoados da Bretanha, com nossa barraca nas costas. Pegamos o ferryboat de Portsmouth para Cherbourg, e, em vez de pegar o caminho de Paris, pegamos o caminho que descia pela Bretanha. Chegamos às seis da manhã. Ninguém parou para dar carona. Um cara na sua moto, entrando nos subúrbios de Cherbourg, nos passou no outro lado da rua e cuspiu encima da gente; e outro fingiu que nos fosse derrubar. Boa acolhida à França! No primeiro dia somente conseguimos uma carona de dois quilômetros. Mas depois as coisas melhoraram. Uma família simpática nos acolheu. Acampamos no seu jardim. Jantamos com eles. Descemos pelo Litoral ocidental da França. Várias caronas em Citroëns Deux Chevaux. Passeamos nas cidades pacatas do oeste da França, e vimos uma coisa tão insólita na Inglaterra de 1972: as famílias sentadas à table, conversando, tomando vinho, en famille, coisa estranha para um inglês, para quem a família somente se reunia de vez em quando para o Natal ou para o almoço de domingo.
O mesmo estranhamento quando fui para Espanha para a primeira vez em julho de 1975, um ano depois de ter começado a cursar Letras na Universidade de Swansea, no País de Galês. Cheguei ao restaurante para almoçar às 12h, junto com os garçons. Na universidade ninguém tinha me dito que na Espanha os horários fossem muito diferentes, e que se começa a almoçar às 14h30!
O ano que morei na Madrid, de setembro de 1976 a junho de 1977, foi um ano fascinante. O General Franco acabou de morrer, e a Espanha rapidamente mudava de uma ditadura para uma sociedade aberta e democrática. Mudei para um apartamento com um grupo de espanhóis. Fizemos festas quase todos os dias. Saímos de “copas” todas as tardes, juntando-nos aos milhões que de tarde, dava uma volta a pé, ainda uma tradição muito forte na Espanha e nos outros países mediterrâneos. Até às dez da noite as ruas estavam cheias das “chicas” elegantes espanholas, mas, depois do jantar, muito tarde na Espanha, entre 21h e 23h, as boas chicas não estavam mais na rua. Em 1976 as boas chicas ainda tinham de estar em casa às dez da noite.
As festas, os amigos espanhóis, as chicas, o ambiente fervilhante de Madrid, ajudaram muito para melhorar o meu castelhano, e consegui uma certa fluência na língua. Tinha quase certeza de que, depois de me formar na Universidade de Swansea, eu fosse voltar a morar na Espanha. Mas não aconteceu assim…
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.

