
Lidando com a predominância do uso de português pelos professores
Você é um professor que trabalha em uma escola cujo ensino de inglês não era visto como prioridade, se vê preso a uma cultura escolar que usa majoritariamente português na aula de inglês e que, por vontade própria ou por novas definições de sua instituição, necessita se adequar a novos paradigmas? Pensando nessa realidade enfrentada por muitos, limitarei a abordagem deste artigo ao uso de português (L1) e inglês (L2) nas falas do PROFESSOR (e não dos alunos). Optei por escrever em português para que o texto possa ser lido com mais facilidade por outros profissionais além do docente de inglês, tais como coordenações e direções.
A sapiência do uso de português
Partimos do princípio que os alunos trazem consigo a língua materna para a sala de aula, que o contato entre as duas línguas acontece dentro da cabeça do aluno (inevitavelmente)e que o objetivo é que se tornem falantes bilíngues (Widdowson, 2003). Porém, usar a língua materna como recurso não é algo feito sem critério, técnicas e estratégias.
Não há ganho de aprendizado pelos alunos se o professor já começa a aula em português ou se recorre à língua materna com mais frequência do que desejável ou aconselhável. Muito se perde da qualidade de aprendizado quando o professor, por exemplo, após dar instruções em inglês, explica tudo em português. O aluno vai perceber que não precisa se esforçar, pois depois vem a ‘papinha feita’. Usar L1 estrategicamente e de forma embasada pode gerar resultados completamente diferentes de trazer a língua mãe de forma desordenada e sem objetivos claros para a sala de aula.
Como e quando usar português?
Não existe uma regra absoluta aplicável a todos e tudo depende da realidade em que a escola, professores e alunos estão inseridos. Focarei nas falas do professor mais espontâneas (serendipitous translanguaging). Uma das técnicas mais usadas é a que denominamos como Sandwiching, ou Técnica Sanduíche. Ela consiste em falar em inglês, repetir a informação (frase ou palavra) em português e voltar a repetir em inglês. (Pode ler mais sobre Sandwiching aqui ).
Veja os exemplos:
Sandwiching com a frase inteira: “Open your books – abram os livros – open your books”
Sandwiching com palavra: “Open your books – abram – your books. Open your books”
Sandwiching dentro de uma fala maior: “It is important for the teacher to speak English because our goal – nosso objetivo – because our goal is to help students.”
É importante que SEMPRE se comece e termine em inglês. A primeira coisa que o aluno deve ouvir deve estar em inglês. Outro ponto a salientar é que não é por o professor poder recorrer a essa técnica, que esta é a única opção para ajudar os alunos a compreenderem melhor. Há situações que se resolvem com outras técnicas, como simplificação de instruções, ajuda de gestos, verificação de compreensão por meio de perguntas, ou simplesmente permitir que
um contexto forte fale por si mesmo.
Muita coisa pode ser comunicada com vocabulário simples. Estes são alguns exemplos de vocabulário que todo professor pode usar e que, com pausas adequadas e contextualização, podem comunicar muito mais do que parece à primeira vista:
- Right (vamos começar)
- OK (terminamos esta parte)
- So (é isto o que vamos fazer)
- Good (está tudo sob controle)
- Now (prestem atenção)
- Next (vamos começar a próxima atividade)
(Pode ler um pouco mais sobre estes exemplos no livro de Halliwell, Teaching English In The Primary Classroom. Veja um excerto aqui ).
Exemplos comentados
Vamos ver alguns exemplos de falas do professor com uso de português na interação de sala de aula e analisar a adequação e real necessidade do uso da língua materna.
| O que o professor falou: | Sugestão: | Comentários: |
|---|---|---|
| A (Aluno): Então podemos escrever aqui? P (Professor): Sim, escreve no caderno. | A (Aluno): Então podemos escrever aqui? P (Professor): ‘Yes, please!’ | Reagir em inglês a perguntas fáceis e simples dos alunos. Muitas vezes, ao adicionar gestos ao contexto, estes tornam-se suficientes para a compreensão. |
| A: Diz algo que não dá pra entender. P: Oi? | A: Diz algo que não dá pra entender. P: ‘Sorry’ ou ‘Pardon?’ ou ainda ‘Repeat, please’. | Reagir em inglês a situações óbvias pelo contexto. No momento em que o professor olhar para o aluno, só usando gestos, consegue se fazer entender. Nesse caso, o uso de ‘Repeat’ também é estratégico, pois o professor está usando um cognato, que tem compreensão imediata pelos alunos. |
| P: What is this place? A: Sitio do Picapau Amarelo. P: (Sorrindo) É o sítio do Picapau amarelo? | P: What is this place? A: Sitio do Picapau Amarelo. P: ‘How interesting!’ ou ‘really?’ | Em reação a uma intervenção oral dos alunos, quer seja solicitada ou espontânea, o contexto é culturalmente familiar e conhecido pelos alunos. Professor não precisa repetir o que o aluno falou e não deve continuar/reagir em português. Reagir em inglês de forma espontânea pois os alunos percebem que foram entendidos pela expectativa da continuidade do diálogo. |
| P: Quando nós não estamos healthy, we are unhealthy. | P: When we are NOT healthy, we are unhealthy. When we are not SAUDÁVEL (com gestos para contexto), we are UNHEALTHY. When we are NOT healthy, we are unhealthy.” | O professor misturou o português e inglês numa proporção desigual – usando mais português do que inglês. O professor deve focar nas palavras-chave para aplicar a técnica sanduíche. O professor começou a fala em português e isso dá um tom de português para o pensamento e recepção dos alunos. Portanto, lembrar de sempre começar e terminar em inglês. O português deve vir no meio – daí o termo sanduiche. |
| P: Pera, deixa eu abrir o site aqui de novo e ver quem vai falar agora. | P: well, let me see… It is slow… Please, my Dear (sosftware) open!! | A função da fala do professor era apenas para evitar momentos de silêncio em sala de aula e manter os alunos na expectativa do que vem. Os alunos não precisam entender o que está sendo dito. Aproveitar para aumentar o tempo de exposição à língua inglesa. |
| P: Agora é hora da aula, não dá. | P: ‘Pay attention’ ou ‘look at me’. | A função é chamar a atenção dos alunos. Pode facilmente ser substituída por uma instrução simples em inglês. Os alunos sabem ao que se refere a chamada de atenção, pois sabem qual o comportamento esperado. |
| P: Hoje vamos fazer uma atividade muito legal. Vocês vão gostar, pois vamos usar o Jamboard. Já usamos o Jamboard numa aula há algumas semanas. Vocês vão compartilhar o mesmo Jamboard. Vocês vão colocar as imagens todas junto na mesma página… Não vai criando páginas conforme a necessidade. Vocês lembram como que faz? Olha só, eu vou ensinar vocês. Vocês vão abrir o Jamboard… lembrando, é com o e-mail da escola… A: comunica que link não funcionou. | Mesmo que professor fale em português, as instruções devem ser objetivas e claras. Poderia ser algo assim: “Use e-mail da escola. Não criar páginas extra. Todos vão usar a mesma página. ” Com Sandwiching: P: It’s Jamboard again. Look! Use the school e-mail – use o e-mail da escola – use the school e-mail. Don’t create pages – não criar novas páginas. A: comunica que link não funcionou. | O professor precisa explicar como funciona o app/ dinâmica da atividade (que é novidade) e verificar se conhecem e sabem usar. Esta fala não está relacionada ao objetivo específico da aula. É complexo, porém necessário que os alunos compreendam. Uso de português poderia ser adequado. Obviamente, melhor que a técnica sanduiche seja usada, sempre que possível – e quase sempre é possível. Simplificar instruções e ser objetivo. Outro fator a se ter em atenção é a complexidade e falta de clareza nas instruções. |
| P: Então eu te mando outro link, tá João? | P: Problems with the link? I send – envio – I send it again. Ok, Joao? | Muito do que o professor falou é desnecessário para a compreensão da atividade. Recorrer ao uso de cognatos, sempre que possível. ‘USE’ é praticamente a mesma palavra em português e inglês. É um cognato facilmente reconhecido pelos alunos. |
A maioria dos exemplos na tabela acima mostram momentos em que o inglês era possível ou o mais adequado e foram oportunidades perdidas por esse professor fictício. Se você, docente de inglês, se vê reproduzindo falas como as retratadas na primeira coluna, sugiro que escolha, a cada dia/semana, uma das situações para focar. Vai ver que com pequenos passos, em pouco tempo, pode mudar esse quadro.
References
- Widdowson, Henry. 2003. Defining Issues in English Language teaching. Oxford: Oxford University Press
- Halliwell, Susan.2013. Teaching English In The Primary Classroom, 13th Ed. Harlow: Pearson Education Limited

